segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O medo sempre me guiou para o que eu quero.

E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado.
Clarisse Lispector

quarta-feira, 21 de julho de 2010

[definições]

Cansado anseio do meu coração sangrando memórias e barulhando segredos. Pulsando sempre um eu tão cheio de ti que nem sei bem quem me tornei, além daquilo que carrego em mim, comigo. Há mais de ti em mim que jamais imaginava ser possível. E é isso que me faz assim, tão tua, sem ser tua. Tão tua, que me perco em ti, dentro de mim.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Ode marítima


(...)
Ah, todo cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei por que, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recoração duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
(...)
E, sem que nada se altere,
Tudo se revela diverso.
(...)
Na minha imaginação ele está já perto e é visível
Em todaa extensão das linhas das suas vigias,
E treme em mim, tudo, toda a carne e toda a pele,
Por causa daquela criatura que nunca chega em nenhum barco
E eu vim esperar hoje ao cais, por um mandado oblíquo.
(...)
Escuto-te de aqui, agora , e desperto a qualquer coisa.
Estremece o vento. Sobe a manhã. O calor abre.
Sinto corarem-me as faces.
Meus olhos conscientes dilatam-se.
O êxtase em mim levanta-se, cresce, avança, (...)
Apelo lançado ao meu sangue
Dum amor passado, não sei onde, que volve
E ainda tem força par me atrair e puxar,
Que ainda tem força par me fazer odiar esta vida
Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica
Da gente real com que vivo!
(...)Ardo vermelho!
(...)
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me...
Eu quem sou para que chore e interrogue?
Eu quem sou para que te fale e te ame?
Eu quem sou para que me perturbe ver-te?
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se o ouro,
Luzem os telhados dos edifícios do cais,
Todo o lado de cá da cidade brilha...
Parte, deixa-me, torna-te
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto,
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte...
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh'alma...
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Advogado terminando namoro

Prezada Otaviana de Albuquerque Pereira Lima da Silva e Souza,
Face aos acontecimentos de nosso relacionamento, venho por meio desta, na qualidade de homem que sou, apesar de VSa. não me deixar demonstrar, uma vez que não me foi permitido devassar vossa lascívia, retratar-me formalmente, de todos os termos até então empregados à sua pessoa, o que faço com supedâneo no que segue:


A) DA INICIAL MÁ-FÉ DE VOSSA SENHORIA:

1.1. CONSIDERANDO QUE nos conhecemos na balada e que nem precisei perguntar seu nome direito, para logo chegar te beijando;

1.2. CONSIDERANDO seu olhar de tarada enquanto dançava na pista esperando eu me aproximar;

1.3. CONSIDERANDO QUE com os beijos nervosos que trocamos naquela noite, V.Sa. me induziu a crer que logo estaríamos explorando nossos corpos, em incessante e incansável atividade sexual. Passei então, a me encontrar com Vossa Senhoria.


B)DOS PREJUÍZOS EXPERIMENTADOS:

2.1. CONSIDERANDO QUE fomos ao cinema e fui eu que paguei as entradas, sem se falar no jantar após o filme;

2.2. CONSIDERANDO QUE já levei Vossa Senhoria em boates das mais badaladas e caras, sendo certo que fui eu, de igual sorte, quem bancou os gastos;

2.3. CONSIDERANDO QUE até à praia já fomos juntos, sem que Vossa Senhoria gastasse um centavo sequer, eis que todos os gastos eram por mim experimentados, e que Vossa Senhoria não quis nem colocar biquíni alegando que estava ventando muito,


C) DAS RAZÕES DE SER DO PRESENTE:

3.1. CONSIDERANDO AINDA QUE até a presente data, após o longínquo prazo de duas semanas, Vossa Senhoria não me deixou tocar, sequer na sua panturrilha;

3.2. CONSIDERANDO QUE Vossa Senhoria ainda não me deixa encostar a mão nem na sua cintura com a alegaçãozinha barata de que sente cócegas,


DECIDO SOBRE NOSSO RELACIONAMENTO O SEGUINTE:

4.1. Vá até a mulher de vida airada que também é sua progenitora, pois eu não sou mais um ser humano do sexo masculino que usa calças curtas e a atividade sexual não é para mim um lazer, mas sim uma necessidade premente;

4.2. Não me venha com 'colóquios flácidos para acalentar bovinos' (conversa mole pra boi dormir!) de que pensava que eu era diferente;

4.3. Saiba que vou te processar por me iludir aparentando ser mulher dos meus sonhos, e, na verdade, só me fez perder tempo, dinheiro e jogar elogios fora, além de me abalar emocionalmente.

Sinceramente, sem mais para o momento, fique com o meu cordial 'vá tomar no meio do olho do orifício rugoso e corrugado localizado na região infero-lombar de sua anatomia' que esse relacionamento já inflou o volume da minha bolsa escrotal!

Dou assim por encerrado o nosso relacionamento, nada mais subsistindo entre nós, salvo o dever de indenização pelos prejuízos causados.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

E começa assim outra estória...

Eu não sei o que me domina
E mesmo assim não penso em me livrar
Num fascínio de alma gêmea
Você em mim constrói o seu lugar
O amor se fez me levando além onde ninguém mais
Criou raiz, ancorou de vez, fez de mim seu cais
Lendo a rota das estrelas
Nesse abraço se fez um ciclo
Que não tem fim e é todo o meu viver
É como alcançar o infinito
Reflete em mim e volta pra você
O amor se fez me levando além onde ninguém mais
Criou raiz, ancorou de vez, fez de mim seu cais
Lendo a rota das estrelas
O amor surgiu como um em mil, por você eu vim
E assim será a me conduzir, sem mandar em mim
Como o vento e o barco a vela, que nos leva sem fim
Ciclo (Jorge Vercilo/Dudu Falcão)

Quem eu sou pra querer entender o amor?

(...)A paixão veio assim afluente sem fim rio que não deságua
Aprendi com a dor nada mais é o amor que o encontro das águas (...)
Qual de nós foi buscar o que já viu partir, quis gritar, mas segurou a voz,
quis chorar, mas conseguiu sorrir? (...)
Encontro das Águas (Jota Maranhão / Jorge Vercillo)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Escrever é esquecer...

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.
Fernando Pessoa

Paulo Coelho, meu caro...

...eu realmente olhei para a estrada diante dos meus olhos e entendi mas não estou feliz a ponto de estourar fogos de artifício por isso que minha caminhada ia ser muito difícil. Algum dia foi fácil? Sempre dentro do possível  mantenho minhas portas abertas, minhas mãos trabalhando e meus pés em movimento. E estou tremendamente grata grata?!? por desejar que minha caminhada seja lenta porque o meu ritmo é o ritmo da mudança. Como você mesmo disse: 'a verdadeira mudança, sempre leva muito tempo para acontecer.' Muito embora adoraria que tudo isso fosse possível num estralar de dedos...
Ainda bem que eu sou otimista...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Boatos, intrigas, calúnia, mentira, inveja, traição e maldade

Para o bom entendedor meia palavra basta. Já para aquele que não quer entender, deixo cá o meu silêncio e a lástima pela falta de interesse em verdades reais e concretas.  Se lido bem com as palavras, não lhe peço desculpas. Devo a um fantástico professor chamado Ir Balestro... Reclame com ele. Sei que não devo nada, absolutamente nada a ninguém, e meu caráter, pois, continua intacto. As minhas palavras jamais serão um amontoado de discursos vazios. Eu não minto. Eu não omito. Eu sou real, sincera e verdadeira. E disso jamais poderão me acusar. Que fiquem, pois, os 'achismos' e a crença em terceiros... que nem sequer me conhecem a fundo, afinal, "As palavras são como os patifes desde o momento em que as promessas os desonraram. Elas tornaram-se de tal maneira impostoras que me repugna servir-me delas para provar que tenho razão."

Escrito há um tempo, já postado, mas que veio a calhar no momento... Achei que valia a pena complementar o post com mais um tantinho da grandiosa obra de Shakespeare e o faço agora, antes de postar o artigo que já pertencia a esta casa aqui. Sem mais delongas, aí vai.

Otelo é uma das mais conhecidas tragédias de William Shakespeare cujo cerne é o ciúme, a insensatez e a perfídia. Um dos maiores e melhores exemplos de como a palavra pode se tornar manipuladora e desencadear uma série de consequências irremediáveis. Como diria Sardas, 'influência da palavra como criadora de fatos (...) usada para fomentar intrigas, para intrigar corações, para mudar a vida das pessoas, para mudar o rumo das coisas, para provocar rupturas, para criar adesões."

Iago, o invejoso alferes de Otelo, primeiro despertou a ira de Brabâncio, contando que sua filha, a boa e doce Desdêmona, fugira com o Mouro:

Irra, senhor! Irra! O senhor está roubado! Vista-se, por decência!, despedaçaram-lhe o coração, perdeu metade da sua alma; agora mesmo, neste instante, um velho carneiro negro está cobrindo a sua ovelha branca. Levante-se, erga-se! Acorde com o toque de rebate os cidadãos que ressonam descuidados, quando não o diabo fá-lo à avô. Erga-se: digo-lhe eu.
E quando Brabâncio, aturdido, pergunta-lhe que é, responde o intrigueiro:

Sou aquele que lhe vem anunciar que sua filha e o mouro estão agora perfazendo o animal de duas costas.
Não satisfeito, e ambicionado o posto do tenente Cássio, Iago, ainda com a força da palavra, instiga Rodrigo, que é apaixonado por Desdêmona, fazendo-o crer que a doce dama por aquele se apaixonara:

Põe o teu dedo asim e deixa que a tua alma seja instruída. Repara com que violência ela primeiro amou o Mouro, somente pela sua jactância e fantasiosas mentiras. Ama-lo-á ela ainda pelo seu palavreado? Não deixes que o pense o teu discreto coração. Os seus olhos precisam de alimento; e que deleite poderá ela ter em olhar para o diabo? - Quando o sangue está entorpecido pela ação dos deleites, deveria haver - para outra vez o inflamar e saciar -, um novo apetite - beleza que ajudasse, harmonia de idade, maneiras e encantos; tudo isto falta ao Mouro. À mingua destes requisitos essenciais, a sua delicada ternura se achará iludida, começará a sentir náuseas, a enjoar-se e a aborrecer o Mouro. A própria natureza a instruirá no assunto e a compelirá a uma segunda escolha. Agora, posto isto (e é uma suposição a mais fecunda e natural), quem está tão iminente nos degraus desta fortuna como Cássio? - um biltre extremamente volúvel -, com tanta capacidade quanta basta para se envolver nas formas polidas e decentes, com que melhor possa encobrir o seu obsceno e libertino afeto? Ninguém, com certeza ninguém, um sutil e insinuante patife, um farejador de ocasiões, que tem olhos capazes de publicar e simular quando mesmo tais fortunas nunca se deram; um endiabrado velhaco! Além disso, o patife é bonito, novo e tem todos os requisitos que a doidice e a imaginação inexperiente procuram. Um biltre completo, pestilento; e a mulher já está eivada.
E, numa clara demonstração de suas intenções , Iago planeja derramar peçonha no ouvido do Mouro, levando-o, envolvido com as palavras do alferes, a matar a bela Desdêmona.

Divindade do inferno!, quando os diabos sugerem os mais negros pecados, tentam-nos primeiro com aparências celestiais, como eu faço agora; porque enquanto este honesto imbecil pede a Desdêmona que repare a sua fortuna, e ela intercede por ele junto do Mouro, eu derramarei esta peçonha no seu ouvido: - Que ela o protege por motivo da luxúria do seu corpo; - e quanto mais ela tratar de fazer bem, mais destruirá o próprio crédito no conceito do Mouro. Assim transformarei a sua virtude em pez; e a sua própria bondade farei a rede que os colherá a todos.




Segue o post antigo...


A Calúnia de Apeles - Sandro Botticelli, 1494-5

Sabe o que eu mais gosto em Shakespeare? A atualidade dos seus temas. Por incrível que pareça a humanidade é tendenciosa e peca sempre nos mesmos erros.

Infelizmente, não há uma só pessoa na terra que não tenha experimentado o amargor de estar enleada numa teia de intrigas, manipuladores e afins. Triste, mas real.

Neste texto dramático de William Shakespeare, deparamo-nos com uma tragédia na qual o herói, Otelo, é o general reconhecido pelo sucesso obtido nos campos e mares de batalha, de onde sempre traz a vitória aos venezianos. Ao assumir a posição de chefe de Estado em Chipre, nomeia Cássio como seu segundo homem, despertando a inveja de Iago, que irá conduzir a ação rumo ao caos, característica própria da tragédia shakespeareana. A trama desenvolve-se em torno desse sentimento de inveja e do ciúme que Iago instila em Otelo, fazendo-o acreditar que sua esposa Desdêmona o trai com o tenente Cássio. O conflito entre o sentimento de amor que o general nutre pela mulher, e a desconfiança incitada por Iago, termina conduzindo à queda do herói, que, debilitado psicologicamente, mata a amada, sufocando-a com travesseiros. Declarado assassino, Otelo é destituído do posto de general e é sentenciado à prisão. Seguindo o modelo do herói estóico do teatro elizabethano, Otelo profere o seguinte monólogo, antes de suicidar-se com um punhal, diante dos representantes do governo veneziano:

Uma palavra ou duas, por favor.
Fiz serviços ao Estado; eles o sabem –
Não importa. O que peço é que nas cartas
Em que contarem estes tristes fatos,
Falem de mim qual sou. Não dêem desculpas,
E nem usem malícia. Falem só
De alguém que, não sabendo amar, amou
Demais. De alguém que nunca teve fáceis
Os ciúmes; porém que – provocado –
Inquietou-se ao estremo; cujos dedos,
Como os do vil hindu, jogaram fora
Uma pérola rara, mais preciosa
Que toda a sua tribo; alguém que alheio
Ao hábito das lágrimas, verteu-as
Em abundância, como verte a goma
A seiva de uma árvore da Arábia.
E digam que em Alepo, certo dia,
Quando um maligno turco de turbante
Agrediu um varão veneziano
E insultou rudemente a sua terra,
Peguei a goela ao cão circuncidado
E o golpeei assim!
(HELIODORA, 2006. p.692)


O boato é habitualmente criado pelo inimigo ou adversário que, descobrindo uma descontinuidade, ou uma zona de distorção, imediatamente se dispõe a utilizá-la e a fazer disso uma arma de arremesso. É por isso uma arma dos fracos. E dos covardes. Os autores do boato nunca se revelam. Alimentam-se no - e do - anonimato. E dá-se muitas vezes o caso de o autor do boato remeter para uma fonte a montante. Por isso, na maior parte dos casos, não há propriamente um autor, há antes uma confraria que vai acrescentando um ponto ao conto.

Na mesma família do boato existe um processo de distorção da realidade, com o objetivo de prejudicar terceiros, que é a intriga. A intriga é um sistema, é um caldo de cultura, em que se fabricam os boatos. O boato é o produto do campo da intriga. E a intriga tem os seus cultivadores, semeadores. Pessoal altamente especializado que reorganizou a inveja e a incapacidade de 'fazer' neste sistema de detração universal. Os intriguistas são seres ultrapassados pelo comboio da vida a quem não resta senão atirar pedras, tanto mais tontas e inconsequentes, quanto maior for a velocidade a que ele se desloca. A calúnia é já um processo de mentira objetiva e dolosa. O caluniador sabe que está a mentir e que a sua mentira prejudicará o visado, mas usa-a deliberadamente para produzir o efeito pretendido. A calúnia tem um emissor identificado. Ela não é uma estratégia anônima como o boato, e é, por isso, menos covarde na metodologia, mas igualmente dolosa no processo e na má-fé.

O problema da boato, da calúnia e da intriga é que se constituem como uma economia paralela à economia da verdade. Diminuem o PIB e aumentam o déficit. São forças de bloqueio à produção de riqueza e ao aumento da coesão social. A intriga é uma arma dos pobres de espírito que, sendo incapazes de produzir e de se afirmar por aquilo que são, tentam sobreviver à custa de afirmar aquilo que os outros não são.

Há milhares de Iagos espalhados por aí. Homens e mulheres escondidos atrás de máscaras ridículas de vítimas iverossímeis que demoram a cair. Estragam as relações das pessoas porque elas mesmas não sabem se relacionar com os outros. Mentem, manipulam, traem, gerenciam intrigas e calúnias das mais variadas formas, plantam rumores e fofocas e invejam o que não possuem e quando não possuem ou se lhes escapa das mãos, não medem esforços na maldade para reconquistar o 'prêmio'. E enganam a todos, sem remorso, nunca tomando a culpa para si, são sempre vítimas das intrigas e calúnias que elas mesmos criaram. Não há limites para a maldade. Ai de quem se põe diante de seu caminho!

Não consigo enxergar uma vantagem sequer em conseguir aquilo que se quer passando por cima de todos os valores, esmagando as pessoas, denegrindo-as e criando estórias inexistentes só para ver o circo pegar fogo. Achando que, assim, tira-as do caminho. Lobos em pele de cordeiro. Infelizmente quando você descobre, já é tarde...

Com sorte, um dia a máscara cai. Um dia... Assisto de camarote, pois!

Já estava a ir-me quando me lembrei de um trechinho de Paulo Coelho - e nisso ele estava certo - que diz que:

O demônio é sábio: podendo evitar trabalho, ele evita.
Sempre que pode, ele lança mão de sua armadilha mais fácil e mais efetiva: a intriga.
Quando a usa, o demônio faz pouco esforço - porque é o próprio homem quem trabalha para ele.
Com palavras mal dirigidas, são destruídos meses de dedicação, anos em busca de harmonia.
Frequentemente somos vítimas desta armadilha.
Não sabemos de onde vem o golpe covarde, e não temos como provar que a intriga é falsa.
A intriga não permite o direito de defesa: condena sem julgamento.
Assim como às vezes somos as vítimas, outras vezes somos tentados a exercer o papel do carrasco.
Por isso, cuidado com as palavras; elas têm poder, e o demônio sabe disso.

Caí de paraquedas, infelizmente, mas não há de ser nada. Eu sobrevivo. Tenho bons ombros pra carregar o peso do fardo. Há de ser só mais um teste do 'Cara lá de cima' pra ver se eu aguento o tranco. Que ano de provações. O que passou e o que entrou. Alguma dúvida? Eu supero. Ah, se supero. Ego sum qui sum. Infeliz de quem plantou a intriga e fez-se de vítima. Jamais e grifo bem JAMAIS falo daquilo que não sei porque não quero que façam comigo o que não gostaria que fizessem. E busco os porquês e as provas para mim porque só a mim interessa. Não faço uso de mentiras. Sou jornalista e busco fontes mais do que confiáveis. Sempre. Em tudo o que faço na vida. Não confio no diz-que-me-disse.

Tenho que confessar que, neste caso específico, cada vez que busco a verdade, mais ela me assusta... E não, não faço intrigas porque cresci vendo em que poço de maldade é capaz de afundar o ser. E isso não quero pra mim JAMAIS!!! Sou transparente. Sou o que sou. Não preciso de estorinhas ou mirabolices para tornar-me mais interessante. Sou bem resolvida quanto a isso. Mais uma vez: ego sum qui sum. Sou o que sou. Sou porque busco ser. E não preciso atropelar ninguém para isto. Acredite você ou não. Mas isso, o tempo há de mostrar. Falem o quanto quiserem. Se incomodo, não sei. Esse ódio todo, felizmente, não me atinge. Como diria Shakespeare, é o veneno que você toma querendo que eu morra.

domingo, 20 de junho de 2010

O que é bom? E o que não é bom? Será preciso alguém pra nos dizer isso?

Acho a maior graça. Tomate previne isso,cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...

Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.

Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.

Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me
embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo,
faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde!
E passar o resto do dia sem coragem para pedir
desculpas, pior ainda!
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada!

Luís Fernando Veríssimo

domingo, 4 de abril de 2010

Tudo na vida se reduz a uma única frase: pra ganhar, tem que perder. O que a gente faz é dar o devido peso às coisas. Se elas valem a pena, por que não? O gris existe. Não só o preto e o branco.

É o silêncio que acaba por dilacerar a alma ávida por ruídos. E o corpo anseia pela vida que - junto contigo - se deixa esvair entre os dedos...

Eternidade

O sol que invade a sala das lembranças não aquece mais a alma. Já é hora de fechar as gavetas da esperança e o armário da mente conturbada. Deixo a cama pronta pra partida do sonho. Lacro o frasco do eterno pra não perder a essência dos bons momentos. E bebo do teu veneno antes que me entregues em bandeja de prata e vire um bibelô qualquer na estante empoeirada do teu passado.
Ah, desejo besta de te ter ao menos na memória e que me guardes na tua feito pedra preciosa...

Insuficiência

Nada se move. Nem uma folha sequer. E eu permaneço estagnada ainda que mantenha-me ocupada em todos os malditos minutos no dia. Nada se move. Não há vento algum pra varrer essa sujeirada que se acumulou no caminho. Chove - e muito! -, mas a água não é suficiente pra lavar a crosta grossa de decepções que começa a pesar o corpo...

Nem se me conhecesse em cores - ou em gris, vez em quando - Clarice Lispector me traduziria tão bem...

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.
Clarice Lispector

sábado, 3 de abril de 2010

Normose

Curitiba, 17-18°C, Sexta-feira Santa à noite: sopa Leão Veloso, suco de tangerina e entre uma besteira e outra, algo filosófico surgia...
'Normose'
(a doença de ser normal)

Todo mundo quer se encaixar num padrão. Só que o padrão propagado não
é exatamente fácil de alcançar. O sujeito "normal" é magro, alegre,
belo, sociável, e bem-sucedido. Bebe socialmente, está de bem com a
vida, não pode parecer de forma alguma que está passando por algum
problema. Quem não se "normaliza", quem não se encaixa nesses padrões,
acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós
gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações
de não enquadramento.

A pergunta a ser feita é: quem espera o quê de nós? Quem são esses
ditadores de comportamento que "exercem" tanto poder sobre nossas
vidas? Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja
assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha
"presença" através de modelos de comportamento amplamente divulgados.

A normose não é brincadeira. Ela estimula a inveja, a auto-depreciação
e a ânsia de querer ser o que não se precisa ser. Você precisa de
quantos pares de sapato? Comparecer em quantas festas por mês? Pesar
quantos quilos até o verão chegar?

Então, como aliviar os sintomas desta doença? Um pouco de auto-estima
basta. Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem
todas as regras bovinamente, e sim, aquelas que desenvolveram
personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu
modo. Criaram o seu "normal" e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não
passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original. Não
adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É
fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.

Eu simpatizo cada vez mais com aqueles que lutam para remover
obstáculos mentais e emocionais e tentam viver de forma mais íntegra,
simples e sincera. Para mim são os verdadeiros normais, porque não
conseguem colocar máscaras ou simular situações. Se parecem sofrer, é
porque estão sofrendo. E se estão sorrindo, é porque a alma lhes é
iluminada. A normose está doutrinando erradamente muitos homens e
mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e
felizes.

Michel Schimidt
Psicoterapeuta

Normal? Eu? Postando às 3:56 da madruga... Sei não.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Se

se
nem
for
terra
se
trans
for
mar
(Paulo Leminski)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Do tamanho da minha intensidade

Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos.
Clarice Lispector

Sou um ser notívago e diurno. Durmo pouco e penso demais.

... e gerúndio, definitivamente, não é o meu tempo verbal predileto.

terça-feira, 16 de março de 2010

Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!

Miguel de Cervantes

Va bene

Allora io dico va bene, e me ne torno sotto al mio piumino. Ho detto va bene tutta la vita. E' il mio destino dire va bene. Uno che si arrende non può che continuare a dirlo, sapendo però perchè lo dice.
Va bene, va bene

Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto-destrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que me leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso.
Caio Fernando Abreu in: Os sobreviventes

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada. (...) Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.
Caio Fernando Abreu in: Os dragões não conhecem o paraíso

Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser,
pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não
existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não
foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a
ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho
vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só
com ela, como um cão com seu osso.

Caio Fernando Abreu in: Lixo e purpurina


Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas as coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? dolorido-dolorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender melhor.


Você sabe que de alguma maneira a coisa esteve ali, bem próxima. Que você podia tê-la tocado. Você poderia tê-la apanhado. No ar, que nem uma fruta. Aí volta o soco. E sem entender, você então pára e pergunta alguma coisa assim: mas de quem foi o erro?(...) Você vai perguntar: mas houve o erro? Bem, não sei se a palavra exata é essa, erro. Mas estava ali, tão completamente ali, você me entende? No segundo seguinte, você ia tocá-la, você ia tê-la. Era tão. Tão imediata. Tão agora. Tão já. E não era. Meu Deus, não era. Foi você que errou? Foi você que não soube fazer o movimento correto? O movimento perfeito, tinha que ser um movimento perfeito. Talvez tenha mostrado demasiada ansiedade, eu penso. E a coisa se assustou então. Como se fosse uma coisa madura, à espera de ser colhida. É assim que eu vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você.

Vilarejo

Marisa Monte

Há um vilarejo ali
Onde Areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for

Trechos de Nicholas Sparks que eu amo (poderia ter escrito isso)

Antes de nos termos encontrado, atravessava a vida sem sentido, sem razão. Sei que de alguma maneira, todos os passos que dei desde o momento em que comecei a andar eram passos dirigidos ao teu encontro. Estávamos destinados a encontrarmo-nos. Mas agora, sozinho na minha casa, comecei a perceber que o destino pode magoar uma pessoa tanto quanto a pode abençoar, e dou por mim a perguntar-me porque razão - de todas as pessoas do mundo inteiro que alguma vez poderia ter amado - tinha de me apaixonar por alguém que foi levada para longe.

...o melhor amor é aquele que acorda a alma
e nos faz querer mais,
que coloca fogo em nossos corações
e traz paz as nossas vidas,
foi isso que você fez comigo
e era isso que eu queria ter feito com você pra sempre...

A razão por que a despedida nos dói tanto é que nossas almas estão ligadas. Talvez sempre tenham sido e sempre serão. Talvez nós tenhamos vivido mil vidas antes desta e em cada uma delas nós nos encontramos. E talvez a cada vez tenhamos sido forçados a nos separar pelos mesmos motivos. Isso significa que este adeus é ao mesmo tempo um adeus pelos últimos dez mil anos e um prelúdio do que virá.

Para todos os navios do mar e todos os portos de escala, para a minha família e todos os amigos e estranhos, essa é uma mensagem e uma prece, a mensagem é que minhas viagens me ensinaram uma verdade, eu já tinha aquilo que todos procuram e que poucos encontram, a única pessoa que nasci para amar eternamente, uma pessoa de Outer Banks e do mistério do Atlântico Azul, uma pessoa rica de pequenos tesouros, que venceu e aprendeu sozinha, um porto onde me sinto sempre em casa e nenhum vento ou problema, ou mesmo a morte pode derrubar esta casa, a prece é para que todos possam conhecer esse amor e ser curado por ele, se a minha prece for ouvida será apagada toda a culpa e arrependimento e todo ódio terá fim, Por Favor, Deus, Amém.

O homem mais sortudo do mundo é aquele que encontra o amor verdadeiro

Assisti pela sei lá eu quantas vezes este filme. Posto aqui dois vídeos com cenas selecionadas. Algumas machucam mesmo a alma.
Não me prolongo. Só deixo cá a concordância com uma das falas de Drácula, no original: Do you believe in destiny? That even the powers of time can be altered for a single purpose? That the luckiest man who walks upon this earth is the one who finds... True love?

parte 1

http://br.youtube.com/watch?v=Jb_rOs9Jmmg

parte 2

http://br.youtube.com/watch?v=jkyKvg6Khmw

Sonhar um sonho é perder outro

Sonhar um sonho é perder outro.
Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

Dizem que são os sonhos que nos movem, que são eles que nos fazem seguir adiante nesta árdua caminhada chamada vida. E que são eles que nos impulsionam à frente sempre. Que são eles que trazem o verdadeiro significado para tudo o que acontece à nossa volta enquanto ainda não os alcançamos. Mas sonhos são sempre sonhos... Até você chegar lá. E muitos deles são mesmo impossíveis, mas a gente finge que nem vê. Estão ali, brilhantes, expostos, vivos, pintados com as cores mais belas e desenhados caprichosamente por nossas mãos imaginárias. Eles simplesmente estão ali...

Só que sempre há um maldito (ou bendito) sonho que é feito aquele pote de ouro no final do arco-íris: você sabe que não existe, mas ainda assim vai em busca porque tem fé, esperança ou seja lá o quê. Porque talvez aquele arco-íris seja especial. Porque você sempre esperou por ele depois que a chuva fina vinha de encontro ao sol ou vice-versa. Mas arco-íris vêm e vão na mesma rapidez. E o tempo - carrasco - não tem piedade. Quando você vê já passou e você nem chegou perto - e se chegou, ele se esvaiu entre os seus dedos feito névoa e desapareceu sem deixar rastros, como se nunca estivesse realmente lá. E aqueles outros sonhos que estavam atrelados ao sonho maior vão desabando feito dominós empilhados em fila única e então, de repente, você acorda oco, vazio e com uma dor chata no peito que não vai embora nunca porque a esperança já fez as malas e está ali, prostrada na porta de entrada da alma, pronta para ir-se embora de vez. E é aí que você suplica para que ela não se vá e lhe faça companhia porque você não quer se desprender daquele maldito (ou bendito) sonho, ainda que ele seja só uma parca lembrança do que podia ter sido, mas não foi, porque ainda assim é melhor do que o oco. Então você fraqueja e se humilha e começa a barganhar por isso e não é bom. Nada bom. Nunca o é. E pensa: onde foi que eu errei? Será que me perdi no meio do caminho?

Há sonhos que nunca vão deixar de ser sonhos porque o lugar deles talvez seja ali mesmo, no mundo dos sonhos. Tentar trazê-los à tona da realidade pode ser um erro. Mas como definir os sonhos? Como decifrá-los? Não sei. Talvez ninguém saiba...

Saber desistir é uma arte que ainda não aprendi com perfeição. Mas saber desistir também pode ser uma benção. Na minha concepção, estou à beira do abismo e o que me impedia de pular já não me segura mais. Talvez seja essa a lição que eu tanto procurava, o porquê que eu sempre busquei. Não sei. Você pode me dizer? Pulo, crio asas e vou em busca da sobrevivência? Renasço outra? Mando-me à merda? E vem meu daemon a alfinetar-me:

- Nem um, nem outro. Garota, hora de pôr as asinhas pra fora e tratar de arranjar um novo sonho, mas seja menos desta vez, bem menos, porque você pensa grande demais 'pro' meu gostinho.

Ligeiro fecho a porta da memória ou ele - meu daemon - entra e arranca as parcas lembranças de uma vez só e eu ainda não me sinto bem em fazê-lo. Deixa o arco-íris ficar só mais um pouquinho, só mais um pouquinho...


Já dizia meu velho professor de filosofia: sonhos não são metas. Metas são alcançáveis. Sonhos não. Temos metas e sonhos. E temos que ter noção de que os sonhos dependem de muito além do que aquilo que podemos, por isso os chamamos de sonhos. As metas, essas estão nas nossas mãos.

Só mais um pouquinho, então... ô, coisa mais triste!



(...)
Darkness on the edge
Shadows where I stand
I search for the time
On a watch with no hands
I want to see you clearly
Come closer than this
But all I remember
Are the dreams in the mist

These dreams go on when I close my eyes
Every second of the night I live another life
These dreams that sleep when it's cold outside
Every moment I'm awake the further I'm away
(...)
There's something out there
I can't resist
I need to hide away from the pain
There's something out there
I can't resist

The sweetest song is silence
That I've ever heard
Funny how your feet
In dreams never touch the earth
In a wood full of princes
Freedom is a kiss
But the prince hides his face
From dreams in the mist

(...)
(These Dreams, Heart, 1985)

(...) Há tanta coisa mais interessante

Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui... Sei eu
Por que amo? Não importa nada. Adiante...

Isso de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar pra elas.
Nenhuma delas em mim é serena...

De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros, ou as que não há.
(Soneto II de Alberto Caeiro, escrito cinco meses antes de Opiário. Londres, outubro, 1913)

terça-feira, 9 de março de 2010

A Intuição é mais forte que a Razão

Devemos sempre dominar a nossa impressão perante o que é presente e intuitivo. Tal impressão, comparada ao mero pensamento e ao mero conhecimento, é incomparavelmente mais forte; não devido à sua matéria e ao seu conteúdo, amiúde bastante limitados, mas à sua forma, ou seja, à sua clareza e ao seu imediatismo, que penetram na mente e perturbam a sua tranquilidade ou atrapalham os seus propósitos. Pois o que é presente e intuitivo, enquanto facilmente apreensível pelo olhar, faz efeito sempre de um só golpe e com todo o seu vigor.

Ao contrário, pensamentos e razões requerem tempo e tranquilidade para serem meditados parte por parte, logo, não se pode tê-los a todo o momento e integralmente diante de nós. Em virtude disso, deve-se notar que a visão de uma coisa agradável, à qual renunciamos pela ponderação, ainda nos atrai. Do mesmo modo, somos feridos por um juízo cuja inteira incompetência conhecemos; somos irritados por uma ofensa de caráter reconhecidamente desprezível; e, do mesmo modo, dez razões contra a existência de um perigo caem por terra perante a falsa aparência da sua presença real, e assim por diante.

Em tudo se faz valer a irracionalidade originária do nosso ser.
Arthur Schopenhauer

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

... quem você escolhe pra você?

Não Perca As Crianças De Vista
O Rappa



Pra enxergar o infinito
Debaixo dos meus pés
Não basta olhar de cima
E buscar no escuro, no obscuro
A sombra que me segue todo dia

Deixo quieto
e seguro as páginas dos sonhos que não li
E outra vez não me impeço de dormir

Os jornais não informam mais
E as imagens nunca são tão claras
Como a vida
Vou aliviar a dor e não perder
As crianças de vista

Eo, Eo, Não perca as crianças de vista
Eo, Eo, Não perca as crianças de vista
Eo, Eo, Não perca as crianças de vista

Família, um sonho ter uma família
Família, um sonho de todo dia

Família é quem você escolhe pra viver
Família é quem você escolhe pra você
Não precisa ter conta sanguínea
É preciso ter sempre um pouco mais de sintonia

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Destiny

Zero 7


[...]The journey's long
And it feels so bad
I'm thinking back to the last day we had.
Old moon fades into the new
Soon I know I'll be back with you
I'm nearly with you
I'm nearly with you

When I'm weak I draw strength from you
And when you're lost I know how to change your mood
And when I'm down you breathe life over me
Even though we're miles apart we are each other's destiny

On a clear day
I'll fly home to you
I'm bending time getting back to you
Old moon fades into the new
Soon I know I'll be back with you
I'm nearly with you
I'm nearly with you [...]

E vivo assim: em licença poética e escassez de sono.

Odiando cada dia da semana e a mim mais ainda por ser tão tola.

Eu te queria assim, por inteiro.

Corpo, alma, coração, inteligência e aquele sorriso de canto de boca cheio de satisfação de me ter ali, sempre tua. De valor mesmo, o RG que era só pra não perder a identidade e o celular ligado pra dizer 'oi' vez em quando e mandar as minhas mensagens absurdamente malucas de tanto amor e das tuas dizendo que eu era pra sempre.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dor de amor

Todos os dias dormia a dor, acordava a dor, alimentava-se da dor, bebia a dor, banhava-se nela e perfumava-se com ela. Uma coisa assim feito piche no pé, difícil de se livrar e mesmo depois de limpo ainda sobra uma mancha sutil de que algo já passou por lá. Fechava os olhos e tentava extrair a dor que assolava o corpo, a mente e a alma, mas não podia. Ela estava sempre ali, como se fizesse parte de sua existência. Queria extirpar, mas não dava. Era como se lhe arrancasse um braço. As horas passavam e aquela maldita dor só aumentava. Era impossível desligar-se dela. Quanto mais tentava, mais se afundava nela. E a sensação de abandono crescia junto. Nunca mais seria a mesma. E era uma dor assim indescritível, interminável, ininterrupta e atroz. Uma dor terrivelmente solitária, de imensidão tamanha, que seria impossível sobreviver. E mesmo assim lutava. E tentava. E se agarrava com unhas e dentes àquela ínfima fresta que forçosamente abriu à contragosto do outro. Mas era uma luta de um só. Talvez já perdida desde o início. E ela não queria enxergar. Enfim, definhou, tal qual a flor - duma sensibilidade tamanha, embora imponente - que, abandonada à própria sorte, não resistiu às intempéries do destino mesquinho que lhe cercava. As migalhas que lhe sobravam não eram suficientes para fazer o pensamento voar. Um amava enquanto o outro, ah, o outro se empolgava...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Definições

Letal é a traição. Tísica é a palavra do traidor. Cimento é a matéria usada por aquele que engana, seca rápido e ninguém consegue moldar mais depois de seco. Amor é o resumo que o letal traidor de palavra tísica e coração de cimento não conhece.

Silvia Maia

Modo de usar-se

"Coitada, foi usada por aquele cafajeste". Ouvi essa frase na beira da praia, num papo que rolava no guarda-sol ao lado. Pelo visto a coitada em questão financiou algum malandro, ou serviu de degrau para um alpinista social, sei lá, só sei que ela havia sido usada no pior sentido, deu pra perceber pelo tom do comentário. Mas não fiquei com pena da coitada, seja ela quem for.

Não costumo ir atrás desta história de "foi usada". No que se refere a adultos, todo mundo sabe mais ou menos onde está se metendo, ninguém é totalmente inocente. Se nos usam, algum consentimento a gente deu, mesmo sem ter assinado procuração. E se estamos assim tão desfrutáveis para o uso alheio, seguramente é porque estamos nos usando pouco.

Se for este o caso, seguem sugestões para usar a si mesmo: comer, beber, dormir e transar, nossas quatro necessidades básicas, sempre com segurança, mas também sem esquecer que estamos aqui para nos divertir. Usar-se nada mais é do que reconhecer a si próprio como uma fonte de prazer.

Dançar sem medo de pagar mico, dizer o que pensa mesmo que isso contrarie as verdades estabelecidas, rir sem inibição – dane-se se aparecer a gengiva. Mas cuide da sua gengiva, cuide dos dentes, não se negligencie. Use seu médico, seu dentista, sua saúde.

Use-se para progredir na vida. Alguma coisa você já deve ter aprendido até aqui. Encoste-se na sua própria experiência e intuição, honre sua história de vida, seu currículo, e se ele não for tão atraente, incremente-o. Use sua voz: marque entrevistas.
Use sua simpatia: convença os outros. Use seus neurônios: pra todo o resto.

E este coração acomodado aí no peito? Use-o, ora bolas. Não fique protegendo-se de frustrações só porque seu grande amor da adolescência não deu certo. Ou porque seu casamento até-que-a-morte-os-separe durou "apenas" 13 anos. Não enviuve de si mesmo, ninguém morreu.

Use-se para conseguir uma passagem para a Patagônia, use-se para fazer amigos, use-se para evoluir. Use seus olhos para ler, chorar, reter cenas vistas e vividas – a memória e a emoção vêm muito do olho. Use os ouvidos para escutar boa música, estímulos e o silêncio mais completo. Use as pernas para pedalar, escalar, levantar da cama, ir aonde quiser. Seus dedos para pedir carona, escrever poemas, apontar distâncias. Sua boca pra sorrir, sua barriga para gerar filhos, seus seios para amamentar, seus braços para trabalhar, sua alma para preencher-se, seu cérebro para não morrer em vida.

Use-se. Se você não fizer, algum engraçadinho o fará. E você virará assunto de beira de praia.
Martha Medeiros

E quem disse que esquecer é fácil?

Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.
Machado de Assis

E quem disse que a gente esquece? O que traumatiza, talvez. Mas o resto fica lá, guardado em algum canto da memória esperando ser desperto. Ou não. O desgosto impulsiona o esquecimento. O que estraga a nossa vida somos nós. A gente permite. Vampiro nenhum entra numa casa em sua forma humana - ou quase humana - sem pedir licença, já dizia a lenda...

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa 

Eu e minhas fugas... pena que nem sempre me dou bem com elas. Na próxima encarnação quero ser bonita, boa e burra. E loira oxigenada, pra morar na Mansão da Playboy, ter absolutamente nada pra me preocupar senão manter o corpo em dia e a conta bancária em ordem, ser narcisista e estar nem aí pro mundo. Essa fórmula deve dar certo, não? Até hoje não vi nenhuma infeliz... Amor? Pra quê???

Na vida do homem, o amor é uma coisa a parte, na da mulher, é toda a vida.

Lord Byron

As sobreviventes, ou pensam como homens ou tiveram a sorte de encontrar um homem que não se envergonhe de vivê-lo como ela.

Encontro das Águas

Composição: Jota Maranhão / Jorge Vercilo


Sem querer te perdi tentando te encontrar
por te amar demais sofri, amor
me senti traído e traidor
Fui cruel sem saber que entre o bem e o mal
Deus criou um laço forte, um nó
e quem viverá um lado só?
A paixão veio assim afluente sem fim
rio que não deságua
Aprendi com a dor nada mais é o amor
que o encontro das águas
Esse amor
hoje vai pra nunca mais voltar
como faz o velho pescador quando sabe que é a vez do mar
Qual de nós
foi buscar o que já viu partir, quis gritar, mas segurou a voz,
quis chorar, mas conseguiu sorrir?
Quem eu sou
pra querer
Entender
O amor

http://www.youtube.com/watch?v=3jPmR7X6sJs

Partidas... nada é como antes.

[...] Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente,
nem a mesma luz,
nem a mesma filosofia. [...]
Álvaro de Campos

Uma vida de sonhos...

Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
Alberto Caeiro in: Contemplo o lago mudo - Cancioneiro

Ah, vontade de SER outra vez...

Minha alma
é uma lâmpada
que se apagou
e ainda está quente...
Alberto Caeiro in: Hora absurda - Cancioneiro